[texto de minha autoria publicado no jornal Ócios de Ofício]

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Acervo Ócios de Ofício


Em uma dessas conversas casuais, que poderiam ter sido motivadas também em uma mesa de bar, refleti sobre como as minhas recentes escolhas de pessoas que me relacionava amorosamente (ou o mais perto disso possível) refletia um pouco do meu padrão de beleza, de certo modo inconscientemente estabelecido, e mostrava minhas inseguranças quando aparecia alguém bacana, mas que fugia disso.

Parece algo óbvio quando falado assim, mas se pararmos para pensar a quantidade de estímulos que recebemos cotidianamente desde que nascemos (leia aqui programas de televisão, cinema, revistas, conversas com desconhecidos, comentários ouvidos dentro de casa e na escola, etc, etc, etc), acabamos construindo conceitos tão fortes e estruturados nessas experiências pessoais, que criamos rejeição ou aversão a certos tipos diferentes daquilo que gostamos. É assim com maneiras de se relacionar, com o nosso paladar (gostar de pimentão ou não, por exemplo. Mas sério, quem gosta de comer isso?) e com nosso gosto estético. Somos influenciados pelo ambiente em que vivemos, uma vez que esses estímulos constantes entranham-se inconscientemente. Entretanto, ao mesmo tempo, também temos autonomia e discernimento suficientes para perceber que isso acontece e moldar de uma forma nossas preferências.

Padrões estéticos, ao meu ver, são uma grande besteira. São fugazes, voláteis, e mutáveis. Cada momento histórico, com seu devido momento político-religioso-cultural-econômico, tem o seu. Desde como era bonito mulheres gordinhas na Europa do século XV, até como as mulheres andavam livremente de calça jeans, cabelo curto e blusinha no Irã antes da Revolução de 1979. E exatamente por questões políticas, que a pressão estética recai tão fortemente sobre os corpos das mulheres.

Hoje em dia, até mesmo em regimes democráticos, vemos a influência midiática de uma sociedade machista sobre como mulheres devem agir, se vestir, manter seus corpos, muitas vezes de formas totalmente desvinculadas a praticas saudáveis. Essa interferência é tão forte e tão velada, que fica difícil, muitas vezes, convencer sua mãe ou sua amiga, que ela não precisa emagrecer. Ser gorda não é feio nem errado. Ruim é não se aceitar. O padrão estético violento perpassa vida de todas as mulheres a vida toda: pink tax, distúrbios alimentares, o sonho do jeans 36, silicone, botox, fazer a sobrancelha, depilação a laser, ter unhas sempre bonitas, salto alto, cílios postiços, escova progressiva, tingir o cabelo para um tom mais claro… Não que, todas essas práticas não possam ser escolhas pessoais pautadas num bem-estar individual com consciência de que existe uma pressão social. Estamos brigando para sermos livres e quem quisermos, e está tudo bem fazer tudo isso se te fizer bem. Mas a busca incessante pela perfeição de um padrão inalcançável é doentia, e vejo até hoje mulheres fortes e esclarecidas ainda desesperadas por quilinhos a mais, por falhas minúsculas perto da grandiosidade de ser que elas são.

Numa dessas conversas com uma amiga querida, notamos que pessoas que se acham bonitas, que são totalmente fora de um padrão estético vigente, são vistas pelos outros, que estão também submetidos a esse padrão, como mais bonitas. É muito doido como o amor-próprio, a autoconfiança e a segurança em si muda a vida ao nosso redor, nossa relação com nós mesmo e com todo mundo a nossa volta.

E ao notar toda essa situação eu percebi como isso impactava na forma de me relacionar amorosamente. As escolhas que tinha feito até então mostravam que eu seguia um certo padrão – inconscientemente – e ao me deparar com uma possibilidade de maior envolvimento com alguém totalmente alheio a esse padrão provocou uma insegurança dentro de mim. Um receio de não gostar, de não ser tão bom, de até mesmo ser julgada por quem estava de fora, algo muito incomum como preocupação para mim nessas situações. Nesse instante parei para me perguntar, se não era uma espécie de preconceito meu em relação a alguém que fugia de uma padrão estabelecido por mim, que tinham pinceladas pessoais, mas ainda assim, uma influência forte externa – parte essa que me incomodava exatamente.

A pessoa em questão poderia parecer bacana na época, e até aquele momento era, e isso me esmagava de culpa por dentro desses receios. Não era minha intuição me dizendo que era furada (poderia ter sido, mas não era), era justamente meu lado que tinha assimilado toda essa influência, toda essa percepção me dizendo, talvez seja hora de mudar, ser sincera e assumir algo para você: você não gosta disso por que não combina com você ou por que te dizem que não é bom, bonito o suficiente? Falar assim é babaca e cruel, mas tenho plena noção de que muitas meninas, inclusive amigas minhas, já devem ter sido dispensadas por um cara por serem gordas, ou fora do padrão de alguma maneira. De uma forma ou de outra, os caras não estão completamente salvos dessa pressão social, claro que de formas diferentes. E também como uma constatação pessoal, quanto mais alta a classe social, mais exigência temos a um corpo perfeito, magro e sarado (também não podemos deixar de considerar as divergências de classe que influenciam gostos, considerando ainda que o padrão da elite reflete na classe média, e por ai vai).

Hoje, acredito que o receio foi um preconceito da minha parte. Não só uma mera questão de gosto pessoal (como, por exemplo, apreciar barba). E ah, caso vocês queiram o desfecho da história: a pessoa não valia a pena realmente. E fico feliz por nessa situação ter sido protegida. E feliz por meu processo de desconstrução continuar gradualmente. Mas triste por todos nós que somos massacrados diariamente (e lutamos bravamente contra) por um padrão injusto e mercadológico.

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